O arquipélago
Cheguei a Cabo Verde quase sem planejar. Estava em uma palestra sobre fotografia quando um amigo comentou, de forma despretensiosa, sobre uma viagem que faria com um grupo de alunos. Aquilo ficou ecoando em mim. Decidi antecipar minha ida. Queria chegar antes, ficar sozinho, sentir o lugar sem pressa. Foi assim que cheguei.
Se eu tivesse desembarcado de olhos vendados, talvez pensasse estar em Salvador. Não pela paisagem, mas pelas pessoas. O sorriso fácil, o corpo que se move com naturalidade, a sensação de acolhimento que não pede explicação. Há lugares que nos recebem como se já nos conhecessem, e isso desarma qualquer tentativa de controle.
Era meu primeiro contato com a África. Entrei pela Ilha do Sal e segui para Santo Antão, até o Vale do Paul. Levei apenas roupas leves, na expectativa dos Dias de verão . Não imaginei o frio. Ao desfazer as malas, encontrei uma frase deixada pela pousada. “Permita-se caminhar por nossas redondezas e conversar com nossos vizinhos.” Aquilo me atravessou. Era um convite para desacelerar, para aceitar a hospitalidade e o tempo do lugar.
Caminhei pelas montanhas do vale, cercado por plantações. Cana-de-açúcar, mandioca, batata, feijão. A cana sustenta o grogue, mas também sustenta histórias e encontros. A água corria pelos canais de irrigação, as levadas, descendo das montanhas e atravessando os cultivos em terraços. Era impossível não perceber o cuidado. Sempre havia alguém ali, mexendo na terra, observando o ritmo da água, repetindo gestos aprendidos ao longo da vida.
Em certo momento, parei em uma pequena casa. Havia uma refeição simples, feita com atenção. A mesa estava cheia, a conversa também. Pensei em fotografar, mas não fiz. Às vezes a câmera atrapalha. Algumas cenas pedem apenas presença, silêncio e gratidão.
Ao sair do Vale do Paul, continuei pelas montanhas até onde o mar começava a se perder na neblina. O azul ia se desfazendo aos poucos. Praias de areia clara e pedras negras surgiam pelo caminho, lembrando a origem vulcânica do lugar. Entre uma curva e outra, pequenas vilas apareciam nas encostas. Eu seguia caminhando, meio sem saber para onde, com uma sensação de estar inteiro, atento, disponível.
Na Ilha do Sal, tudo muda. A luz é mais direta. As praias têm areia branca, o mar um azul quase desenhado. Para dentro da ilha, o cenário se torna seco. Salinas em tons suaves, vilarejos cheios de movimento, crianças correndo, pessoas conversando à porta de casa. O vento sopra o tempo todo, impulsiona o kitesurf e parece organizar o cotidiano.
Em uma das caminhadas, vi uma criança correndo por uma escadaria. Ao fundo, a estrada se dividia. Fiz a fotografia quase sem pensar. Mais tarde, uma terapeuta se interessou por essa imagem. Perguntei o motivo. Ela falou da criança que seguimos carregando dentro de nós, mesmo quando a vida adulta tenta endurecer tudo. Falou também da bifurcação no final da escada, como se fosse uma escolha que fazemos o tempo inteiro. Parar ou seguir. Avançar ou recuar.
Talvez seja isso que essas viagens nos devolvem. A lembrança de que crescer não significa abandonar a parte que brinca, mas aprender a decidir sem sufocá-la. Fotografar, ali, nunca foi sobre capturar algo. Foi sobre estar aberto. Sobre aceitar que nem tudo vira imagem. Algumas coisas ficam apenas no corpo, na memória, no jeito como voltamos diferentes sem saber exatamente explicar por quê